Para o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, as autoridades monetárias de todo o mundo não têm o mesmo entendimento sobre moedas digitais e ainda há muitas perguntas sem resposta. Ele encerrou hoje, 25, o Ciab 2021, promovido pela Febraban, traçando um amplo cenário do sistema financeiro do futuro e os desafios tecnológicos e regulatórios.

“Hoje quando olhamos para o mundo da tecnologia de moeda digital e o que os bancos centrais falam o que deveria ser uma moeda digital, esses dois mundos não conversam 100%. Há muitas perguntas feitas de um lado não respondidas pelo outro. Estamos num processo de brainstorming para tentar responder, entendendo que a moeda (do BC) precisa ser uma extensão da moeda física. Que não crie nenhuma disrupção no mundo e intermediação financeira”, sinalizou Campos.

Mas se há o entendimento de que a CBDC será uma extensão da moeda física, significa que o emissor da moeda – no caso o BC, que não é o custodiante – faria a conversão pelo mesmo preço. Mas se a moeda digital tiver mais valor por ser mais segura, por proporcionar negócios diferentes, haverá uma grande demanda pela moeda digital e as pessoas vão querer converter a moeda física em digital.

“No balanço dos bancos essa moeda funciona como um depósito com 100% de compulsório e não dá capacidade multiplicadora. O que aconteceria com o balanço dos bancos se  todo mundo quiser fazer uma conversão integral de toda moeda física em moeda eletrônica. Haveria um problema de intermediação financeira. Alguns estão sugerindo criar uma taxa de juros negativa na moeda digital o que vai equilibrar a oferta e demanda em relação à moeda física. É óbvio que isso não é simples de fazer e nem vai acontecer. Querer ser um emissor centralizado, querer ter processos de segurança e querer dizer que a moeda digital é uma extensão da moeda física há alguns limitantes”, afirmou o presidente do BC.

De acordo com campos, a inovação e a tecnologia se tornaram o grande veículo para empoderar as pessoas e democratizar as formas de comunicação e consumo. A tecnologia evolui inicialmente com o aumento da capacidade computacional, seguida pelo aumento do armazenamento de dados, sua interpretação e atual fase de monetização dos dados.

“O futuro da intermediação financeira será cada vez mais organizado por algoritmos. O mundo financeiro é de informações assimétricas como os que regulam o spread bancário que depende de garantias e histórico de crédito, informações assimétricas, que fazem parte a otimização dos processos de intermediação financeira”, analisou Campos.

Ele citou o movimento das fintechs que, para ele, junto com os bancos, estão produzindo novas formas de fazer negócio. Mas recentemente, a iniciativa das mídias sociais entrando no mundo de serviços financeiros, especialmente no segmento de pagamentos, como Facebook Pay, Google chat na Índia, além de outros exemplos na Rússia e na China.

“Há uma cadeia vertical em que há a mensageria, o conteúdo e os pagamentos, o que captura uma grande quantidade de dados. A grande corrida do ouro hoje é ter informações e dados porque é isso que derruba a informação assimétrica onde está a grande parte do spread bancário”, afirmou Campos.

Ele disse que a preocupação do Banco Central é que essa convergência se transforme em fator competitivo ao longo do tempo, quando há um grande jogador. Hoje a forma de se precificar empresa diferente dos métodos tradicionais de avaliação é a capacidade de se precificar o intangível de dados, no conceito de “data cap”, em oposição ao Market cap.

Ele citou desafios para se entender os dados internamentes e afirmou que quem quiser participar do novo processo terá de abrir os dados de forma homogênea.

“Nesse sentido, as mídias sociais também estão passando por uma disrupção a partir de um movimento de passar seu poder para as pessoas. Hoje fazemos poupança financeira, mas, no futuro, faremos poupança de dados para usar com quem queira fazer negócios conosco. Há empresas fazendo isso. Nós do BC já conversamos com algumas. E com as tecnologias de blockchain você descentraliza esse poder, criando uma ruptura total a forma como conhecemos hoje. E isso já está acontecendo com movimentos com o Bit Cloud em que as pessoas podem monetizar sua fama”, avalia Campos Net.

Ele diz que grande parte dos projetos que passam pelo laboratório do BC e pelo sandbox são no conceito de finanças descentralizadas que não passam pela regulação da autoridade monetária. Isso é possibilitado por moedas digitais e plataformas descentralizadas. Por isso o movimento do BC de criar sua moeda digital, com liberdade e descentralização, mas de uma forma que ainda esteja no seu domínio.

“Não basta o Banco Central ser o regulador do mercado financeiro de agora, mas também prever a regulação do mercado financeiro do futuro. O Pix foi um projeto antecipado, que foi absorvido pelos brasileiros, com grande apoio de todos os players. Mas houve a preocupação de ter a liquidação financeira centralizada, os que fizeram com liquidação fragmentada tiveram enormes prejuízos”, diz o presidente do BC.

No movimento do monetizar dados há o Open Banking, agora Open Finance. O projeto será implementado em fases e todos os agentes estão correndo para fazer as adaptações, mas a velocidade é muito importante. Nesse ambiente de monetizar dados e finanças descentralizada entra a moeda digital.